A lesão da cartilagem articular do joelho em pacientes jovens permanece um desafio para o tratamento ortopédico. O objetivo do tratamento destes pacientes visa estabelecer uma boa função e um bom alinhamento do membro, proporcionando estabilidade e ausência de limitações às atividades diárias e à prática esportiva. As técnicas cirúrgicas disponíveis atualmente no Brasil não conseguem reestabelecer a anatomia da cartilagem articular em casos de lesões grandes.

O Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC-FMUSP atende, todos os dias, inúmeros pacientes jovens vítimas de acidentes automobilísticos com lesões graves de joelho. Muitos destes pacientes possuem lesões grandes da cartilagem articular, sendo que, até hoje, no Brasil, não possuindo opções biológicas adequadas de tratamento. Essa dificuldade no tratamento destas lesões onera o sistema de saúde, pois os mesmos não conseguem retornar ao trabalho prévio por estarem incapacitados, necessitando de auxílio-doença ou aposentadoria definitiva, além de demandarem tratamento médico por tempo prolongado, pelo fato das técnicas cirúrgicas não levarem a bons resultados.

Por este motivo, no início de 2010, iniciamos um protocolo de tratamento que visa estabelecer uma opção de tratamento destes paciente, realizando um transplante a fresco de parte da cartilagem articular (Transplante Osteocondral a Fresco). Nesta técnica, parte do osso e da cartilagem de joelho de cadáveres é transplantada para o paciente lesionado, reestabelecendo a anatomia da superfície articular do joelho, permitindo uma boa função ao joelho e o retorno ao trabalho.

O transplante osteocondral a fresco é uma técnica realizada há mais de 30 anos em diversos países, onde são obtidos excelentes resultados. Para sua realização depende-se de um Banco de Tecidos altamente especializado para a manipulação dos tecidos. O osso e a cartilagem são captados de pacientes doadores de órgãos e passam por inúmeros testes e exames para certificação que os tecidos estão livres de contaminação. Só após todo o processamento e o resultado dos exames os tecidos serão utilizados, tendo prazo máximo de viabilidade de até 30 dias após a doação.

O trabalho do banco de tecidos do IOT iniciou-se em meados de 2010, após aprovação na comissão de pesquisa e ética do Hospital das Clínicas da FMUSP. Desde então foram padronizadas as técnicas de coleta e processamento dos tecidos pela equipe do Banco de Tecidos do IOT, além do treinamento da equipe técnica. Neste mesmo ano foi aprovada lei pelo Ministério da Saúde, que regulamenta a utilização dos enxertos osteocondrais a fresco em humanos.

Um meio de preservação do tecido osteocondral foi desenvolvido pela nossa equipe, tendo sido realizados testes de citotoxicidade e viabilidade celular para sua utilização.

Ao longo dos dois últimos anos os paciente vem sendo selecionados no ambulatório do Grupo de Joelho do IOT, preenchendo questionários onde o procedimento é explicado detalhadamente e elaborando fila de pacientes para o transplante ser realizado, conforme local e tamanho da lesão (como é realizado na fila de transplante de fígado e rim).

Os pacientes selecionados preenchem um termo de consentimento da pesquisa e aguardam doadores de tecidos compatíveis para que sua cirurgia seja realizada.

No inicio do ano de 2012 realizamos o primeiro Transplante Osteocondral a Fresco no Hospital das Clínicas de São Paulo, porém a escassez de doadores de tecidos leva a uma demora prolongada na obtenção dos tecidos para este procedimento.

FIGURA 1

Transplante de Cartilagem (Transplante Osteocondral a Fresco) - transplante de tecido ósseo e cartilagem de um doador para uma receptor